sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

Quero ter uma entrada USB na minha nuca


Quando o Sérgio B. Gomes e eu conversámos sobre a possibilidade de criar este blog, há quase dois anos, ficou mais ou menos acordado que o Bordado Inglês seria um espaço para, entre outras coisas dispersas, contar a minha experiência na universidade. Eu tenho a impressão de que tenho falhado nesta tarefa. Às vezes até me indago se este blog cheio fios soltos ainda tem razão de ser. Não sei. Talvez seja apenas uma crise passageira.
Investigar um assunto que amamos - as relações entre a ciência e a literatura, no meu caso - é extremamente compensador. É um privilégio, aliás. Mas é um trabalho lento. Passamos o dia num escritório a ler, a tirar apontamentos, a preparar entrevistas e a responder mensagens de correio electrónico. Apenas uma parte pequena do tempo é usada para escrever algo que de facto fará parte da tese.
Ao contrário do que acontecia até 31 de Dezembro de 2007, quando o Jornal PÚBLICO me concedeu uma licença sem vencimento, eu não produzo textos para serem publicados num prazo de 24 horas. E isto faz com que seja diferente a minha relação não só com o tempo mas também com aquilo que sou capaz de produzir durante um dia. Aprendemos aos poucos a aceitar que não teremos nada de concreto para tornar público tão cedo. Aprendemos a compreender que há um texto muito confuso a ser escrito dentro da nossa cabeça - e que só nós mesmos temos acesso a ele, pelo menos até que ele ganhe forma no papel. É uma espécie de obsessão saudável que nos ocupa o cérebro e nos faz ficar um tanto alheios ao que se passa à nossa volta. Perdemos a vontade de escrever ou falar sobre qualquer coisa que não esteja relacionada com a nossa tese. Ficamos chatos , egoístas e repetitivos.
Torna-se então um formidável desafio narrar como correu o teu dia sem provocar um tédio profundo no interlocutor. Podes sempre dizer que estiveste ler, que descobriste um artigo muito interessante numa publicação científica que até então julgavas não prestar para nada, que recebeste um e-mail do David Mitchell com comentários preciosos sobre a personagem Somni~451, que ainda estás à espera que o agente literário do Ian McEwan diga se há ou não entrevista... mas a verdade é que isto interessará a muito pouca gente. Acresce que inventariar tarefas quotidianas não é o caminho mais inteligente para transmitir aos outros os parágrafos e as imagens que entretanto se movimentam dentro de ti. Não faço a mínima ideia de como partilhar estas ideias desgarradas aqui convosco. Talvez seja tempo de deixar de bordar.
Gostava de ter uma entrada USB na minha nuca para poder descarregar aqui o meu fluxo diário de ideias , apontamentos e leituras. Ficariam assim imediatamente disponíveis no ecrã não só as passagens dos textos que colori com marcador amarelo mas também o cheirinho do café que tomava enquanto os lia; as imagens que esses mesmos textos evocaram e o comentário que um colega fez ao ver tal figura representada no meu computador; o som da chuva a molhar a janela rectangular ao meu lado e a humidade do olhar para a página em branco.

9 agulha(s):

Renato disse...

Nem pense em acabar com o Blog, Andréia. Essa vida de estudante de doutorado é chata mesmo. A minha agora se resume a leituras de notas de aulas (frequentemente com vários erros que temos que adivinhar) e listas de exercícios (os infames problem sets). As suas entrevistas com os estudantes daí são muito legais! Não encontrou nenhum brasileiro? Esses também pensam em português!
Beijos,
Renato (Franja).
P.S.: não sei se alguém te falou, mas estou fazendo doutorado em Agricultural and Resource Economics em Berkeley. Comecei nesse semestre.

Dani disse...

Vá colocando um ponto cruz aqui, outro acolá. Ao final, temos a trama toda do bordado - quando tudo acabar, isso vai estar aqui para relembrares estes tempos, mesmo que não seja um diário da experiência acadêmica. Retire o peso da obrigação de escrever aqui, mas continue, please. Textos como os de hoje sempre são uma delícia de se ler.
Beijocas, nerd bordadeira!

diana disse...

eu cá concordo. há muitos (também os que pensam em português) que gostam muito de te ler.

Tuki disse...

Já recebi comentários manifestando preocupação com o teu desânimo. Pensa nos teus leitores. Eles procuram o blog porque gostam de ler o que escreves. Esta (aparente) falta de sentido é uma fase passageira, típica de final de gravidez "tésica". Passará. E o blog continuará.

Anónimo disse...

"Talvez seja tempo de deixar de bordar."
Pelo Amor de Deus, não cometa esse acto tão radical.
Não deixe de bordar, pois adoro os seus bordados.
Um beijinho
Maçala

Anónimo disse...

Cara Andréia,

tenho vindo a ler o seu blog com mais regularidade desde que a vi em acção no Luso2009 e gostava de lhe dizer, que sendo também eu estudante de literatura, gostava muito de poder continuar a ler o seu blog, que acho bastante inspirador!

Felicidades para o seu trabalho e continue a partilhar os seus bordados connosco!

Ana

Anónimo disse...

(há uma vírgula terrivelmente mal colocada no meu textinho acima, pelo que peço desculpa!)

Ana

Anna Olsson disse...

Podia subscrever aquilo todo (menos a experiência de jornalista), e aquilo que dizem os outros comentadores.

Ando a ler a autobiografia da minha escritora preferida de romances policiais, PD James, onde ela escreve um diário mais ou menos diariamente durante dois anos como pretexto para fazer reflexões e contar memorias da longa vida dela. Admirável.

A proposito disto, existem dois livros fantasticos publicados pela Gulbenkian inglesa, "Science, not art" e "Art, not chance", que recomendo vivamente.

Mas mais do que tudo espero que continuas a bordar, e que bordas também estas reflexões que achas que se calhar só te interessam a ti, mas que eu acho que terão um publico bastante maior!

Anónimo disse...

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